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Diversidade e inclusão na América Latina e Caribe

Diversidade e inclusão na América Latina e Caribe

Artigo de Margareth Flórez, Diretora Executiva da RedEAmérica

Apesar dos avanços das últimas décadas em matéria econômica e social, a América Latina e Caribe continua sofrendo uma forte e persistente desigualdade. Dez dos quinze países mais desiguais do mundo estão nessa região, e a desigualdade tornou-se uma característica histórica e estrutural de nossas sociedades.

A condição étnico-racial, de gênero, de origem socioeconômica e geográfica são fatores fortemente associados à persistência e à reprodução dos ciclos viciosos da desigualdade. A discriminação, a exclusão, a debilidade das instituições responsáveis por velar a garantia dos direitos dos mais vulneráveis, e a falta de políticas públicas com um olhar sensível para as diferenças e para a diversidade, perpetuam as condições que mantêm as enormes discrepâncias entre os cidadãos latino-americanos. Deste modo, a pobreza e a desigualdade possuem rostos: são jovens, crianças e mulheres afrodescendentes, indígenas, moradores de zonas rurais da América Latina e Caribe.

Esta população é ainda pouco visível nas estatísticas, e, em consequência, nas políticas públicas. Há apenas 16 anos, os censos na região começaram a coletar estatísticas desses perfis, e ainda há muitas deficiências no registro. De fato, nem todos os países da região contam com informação de pobreza classificada por etnia ou com as informações necessárias para compreender as diversas arestas do problema. Essas deficiências têm contribuído para que as diferenças associadas às condições raciais, étnicas e de gênero não sejam devidamente atendidas.

Na região, a população em situação de indigência e pobreza é significativamente maior entre indígenas e afrodescendentes. No caso da população indígena, as taxas de pobreza são, em média, duas vezes maiores que entre o restante dos latino-americanos. Essa situação implica enormes desvantagens quanto ao acesso, permanência e conclusão escolar, e, em consequência, dificuldades para acessar o mercado laboral formal, bem como para usufruir dos sistemas de saúde e previdência social. De acordo com dados do Banco Mundial, no Brasil, uma mulher afrodescendente grávida possui três vezes mais possibilidade de morrer durante o parto que uma mãe branca. No Peru, 20% da população vive com menos de 2,50 dólares por dia, mas, se mensurar apenas a população indígena, a porcentagem chega a 30%.

Essas informações demonstram o grau de exclusão e marginalização em que vivem estes grupos populacionais que, em consequência, não participam dos círculos de poder nem dos processos de tomada de decisões, possuem menores possibilidades de inclusão social e econômica, menores oportunidades para se desenvolverem e para exercerem seus direitos, e são os mais afetados pelos desastres naturais e mudanças climáticas.

É urgente avançar rumo à plena garantia dos direitos dos grupos populacionais afrodescendentes e indígenas, e incluí-los nas estratégias de desenvolvimento. A enorme riqueza étnica e cultural e a diversidade latino-americana deveria favorecer a busca pelo desenvolvimento sustentável, e não ser um fator de perpetuação dos ciclos viciosos da pobreza e desigualdade. 25% da população na região, ou seja, uma a cada quatro pessoas, é indígena ou afrodescendente. Conta-se 826 povos indígenas reconhecidos pelos Estados, cuja população estima-se em um total de pelo menos 48 milhões de pessoas. Existe, além disso, uma grande população afrodescendente, estimada em mais de 125 milhões de pessoas, sendo que a maioria vive no Brasil. 

Toda essa diversidade que caracteriza a América Latina e Caribe, ao invés de ser uma fonte de riqueza e uma alavanca para o desenvolvimento sustentável, tornou-se um fator que aprofunda e dá rosto à pobreza e à desigualdade. Como contornar essas circunstâncias? Como tornar a diversidade em uma alavanca para a construção de uma sociedade mais inclusiva, igualitária, próspera e democrática? Como envolver esses grupos populacionais tradicionalmente excluídos nas estratégias para alcançar o desenvolvimento sustentável? Como alcançar um desenvolvimento nesta região que seja para todos?

Essas perguntas são relevantes, complexas e estruturais. Construir riqueza a partir da diversidade supõe, entre outras coisas, dar visibilidade, identificar e aceitar as diferenças e complementaridades; estimular a participação, a inclusão de vozes e o diálogo; promover acordos, colaboração e vínculos entre diferentes para estabelecer as bases de uma sociedade que garanta os direitos, que seja equitativa e democrática com uma perspectiva a longo prazo; trabalhar em leis e programas que visam a inclusão; fortalecer as instituições para garantir os direitos de todos os grupos populacionais; mas, principalmente, é preciso trabalhar nas atitudes e percepções. Erradicar a pobreza e a desigualdades, e fazer com que a prosperidade chegue a todos, requer ações que mudem a forma como as sociedades interagem consigo mesmas para promover a inclusão.

Se não conseguirmos dar visibilidade, incluir a voz e as expectativas destes grupos, as políticas públicas e as ações (públicas, privadas, civis) não poderão incorporá-las, as soluções serão parciais e pouco efetivas, as possibilidades de articulação não ocorrerão, e perderemos as oportunidades criativas de encontrarmos novos caminhos e mais efetivos para o desenvolvimento.

A RedEAmérica tem chamado as empresas, fundações e institutos a promoverem comunidades sustentáveis, compreendidas como aquelas que constroem democraticamente o desenvolvimento, entre múltiplos atores, buscando o equilíbrio entre o social, o econômico, o ambiental, humano e institucional, com perspectiva de equidade a longo prazo. E, nessa perspectiva, não é possível pensar na construção de comunidades sustentáveis na América Latina e Caribe sem compreender e gerir a diversidade e a inclusão.

Por isso, convido-os ao FIR Salvador 2019 http://fir-redeamerica.org/pt, onde esperamos gerar uma reflexão sobre as oportunidades e os desafios que a diversidade apresenta às empresas, institutos e fundações para construir, com outros atores, o desenvolvimento sustentável na região. Não apenas aspiramos contribuir para que ninguém fique para trás, como determinam os ODS, mas tornar a diversidade uma fonte de geração de criatividade, inovação e riqueza para todos. 

SIGUIENTE Salvador sediará fórum internacional sobre diversidade na promoção de comunidades sustentáveis Evento será aberto ao público e já está com inscrições abertas
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